9.3.07

[Esse vai, especialmente, para as Marianas (minha fofa, viana-mala e a mãe de Chico Blues). E como ontem foi Dia Internacional dos Seres Quase Perfeitos, vai também para as gurias que me acompanham por aqui: Adrianne (S2), Engel e Mila! Ahhh... vale ressaltar também meu abuso em usar nomes e sobrenomes de Geraldo e Jessy! Beijão a todas!!! (Geraldo, você se inclui nesse beijo e nesse todas!)Curtam aí, boa leitura...]


Um historiador de fusca azul

Ela é digna de minha paixão. A beleza limpa com seus dezessete anos. Cabelos longos e lisos, feições que nos mostram o sabor puro da mestiçagem, ares indígenas e traços finos europeus. Pele gostosa, morena, convidativa ao toque, ao roçar de rostos, de gostos. E, não fosse pouco, usa do intelecto. Dessas garotas que têm piercings no nariz e gostam de história, literatura, filosofia. Vive às voltas com “O Mundo de Sofia” entre os corredores, nos intervalos, arrumando um canto pra desfrutar das linhas de Gardner. Sem dúvida linda. Um sorriso que remete a quão prazeroso deve ser sentir a língua por trás daqueles dentes. Magra, mas não uma magreza franzina, ao menos não é assim que a farda opaca me faz parecer. Pelo pouco que o branco do uniforme me deixa imaginar, percebo uma cintura acentuada e seios suficientes para mil deleites.
O começo nessa escola foi inusitado. Tenho 22, me formei em história há pouco mais de um ano. Pra cursar foi complicado, meus pais contra. Mas fui. Fui sim! Fui ao encontro de mil batalhas seculares, fui encontrar com o filho-da-puta do Hitler e seu Nazismo sujo. Dei de cara com Francisco Ferdinando sendo assassinado por um homicida da Mão-Negra em frente aquela padaria. Fui lado a lado do Bucéfalo e seu bravo dono, Alexander. Vi a primeira faísca brilhar entre as pedras com a excitação de homens com quê de macacos. Viajei. Mudei-me, antes disso tudo, eu me mudei. Não era mais clima de família, eu era agora universitário. Historiador alternativo, desses que bebem e gostam de discutir as verdadeiras causas da entrada dos Estados Unidos na Primeira Grande Guerra, entre um copo de cerveja e um Marlboro, é claro.
A faculdade era noturna. Durante o dia eu trabalhava numa livraria do centro da cidade, uma mistura de cyber com bar e literatura. Lugar interessantíssimo para se trabalhar, nas sextas havia música com as figuras locais, um pessoal de vida quase boêmia que vivia em busca de um mínimo sucesso, e bradava a plenos pulmões o orgulho de fazer arte num país em que cultura anda em baixa. De bossa a maracatu elétrico, ali de tudo se podia ouvir, os proprietários do lugar prezavam pela originalidade e pela qualidade musical. Nessas mesmas sextas, os hippies de biologia e os colegas malucos de história sempre apareciam para apreciar o som daqueles semi-boêmios.
Eu sempre me dei com essa atmosfera da arte, antes mesmo de projetar minha saída de casa já me imaginava num lugar desses, com contato direto com os cabeças da cultura de minha cidade. Foi uma experiência deliciosa, do jazz a leitura clandestina de Saramago nos intervalos de almoço, foi realmente gostoso trabalhar nesse recôncavo intelectual do centro histórico daqui (a localidade deixava o charme do lugarzinho ainda mais aceso!). Mas acabou. Por questões administrativas, versão que pouco creio, os donos disseram que não me precisavam mais. Explanaram sobre questões de “enxugar” o orçamento do pequeno estabelecimento e etc. Achei um tanto injusta a escolha de mim para esse corte. Fui exemplar na conduta de proletário, já visando que numa dessas o meu nome estivesse a salvo. Mas parece que o meu esforço fora pouco. Ainda na justificativa de patrão disseram que eu era muito simpático, extrovertido, e que boa parte do que se vendia ali se devia até mesmo a minha ousadia como vendedor, mas que era inevitável a minha demissão. A partir dali ficariam só com metade do quadro de empregados, que éramos seis, e se engajariam em trabalhar mais eles dois, para suprir a falta dos três demitidos. Eram dois caras interessantes esses sócios, deviam ser amigos há muito, os dois deviam beirar os 35 anos. Grande visionários de mercado e de investimentos, prova disso era a grande sacada que era esse bar-cyber-livraria. Contudo, conseguiram minha antipatia. Já que eu era tão valoroso por que me cortaram? Com certeza esse discurso de simpatia e extroversão fora repetido aos outros dois despedidos.
Estava eu desempregado agora, as contas do apartamento estariam por vencer e meu carro a meio tanque. Voltei aquela noite dentro do meu fusca balançado, depois que deixei meu antigo trabalho com a carta de demissão no banco do carona a pergunta que martelava era a mesma que ocupa a cabeça da maioria dos recém-chegados ao olho da rua: onde caralho eu vou arrumar dinheiro?
Depois de quatro anos fora de casa, esmolar uma ajuda dos pais feriria meu orgulho. Nesse meio tempo a única ajuda que me deram foi o dinheiro para eu comprar um carro. Não pedi carro algum, mas eles se compadeceram de minha condição de assalariado e resolveram dar ao filho algo melhor que a vida diária de ônibus. A quantia que me puseram cobria o custo de um automóvel moderno, desses com regulagem de direção, cd player e essas frescuras opcionais. Não o fiz. Comprei um fusca com tantos amassados, arranhões e remendos na lataria e pintura que mal se suponha a cor do veículo, que era azul-céu. A carcaça estava, de fato, um lixo, no entanto o motor, na disposição, era pura juventude. Como a idade dele não é tão desprezível, digamos que com o desempenho juvenil e seus quarenta e poucos anos, ele fosse equiparado a um coroa inteiro. Levei a uma oficina mandei cortar o teto, refazer a pintura e pintar a lateral de branco. Dei uma turbinada no ronco do barulhento e ainda pus rodas tipo anos 60, com aquele miolo branco e a parte metálica na cor do carro! O carro ficou um tesão! Agora eu era possuidor de um charme sobre rodas, fusca conversível! E que, não fosse o ronco de gente grande que ele tinha agora, podiam jurar que viera do passado para os nossos dias intacto ou que esperara esses anos todos para ser meu. Uma pérola! Toda essa construção me consumiu pouco mais de dois terços da grana original. O resto foi gasto numa viagem para a Chapada com meus maninhos Nunes e Daiane, meus companheiros de vida e de apê.
Adentrei o apartamento, a carta segura na mão frouxa a auto-estima na altura do joelho. Nunes com sua intimidade um tanto homossexual:
- Que foi que te fizeram meu gostoso?
Daiane em risos por causa da pérola de Nunes me fez pergunta semelhante. Me alonguei em passos cansados até o sofá e sentei em silêncio buscando as palavras para a notícia, nada agradável. Não as encontrando, me esforcei em gaguejos:
- È que...
- Vamos querido! Fale! – Daiane medindo meus ânimos e ansiando alguma resposta minha.
- Me puseram para fora na livraria. Disseram que tinham que cortar uns nomes do quadro e o meu foi um dos premiados. – Falei olhando pro chão.
- Porra! Que veados! Eu sei que você se amarrava naquele lugar, mas fica assim não negão! – Nunes minimizando.
- Que nada amor! O lugar era top mesmo, mas você tem que partir mais pra sua paixão. Quase um ano de formado e ainda não vi você falar em escola. Tá na hora de você entrar na sala e falar do que você gosta!
- È cara! Daiane tá vendo uns estágios pra ela que ta no final do curso. Vocês podiam se aliar nessa procura! – Nunes genial!
- Nossa! É por isso que eu amo os dois! Foda-se a livraria! Ta na hora de ser mais um educador! – Concordei rasgando a carta de demissão e abraçando e beijando aqueles pestinhas.
O entusiasmo no começo nos mobilizou bastante. Eu e a maluquinha da bióloga rastafari (Daiane) saímos todos os dias a cata de alguma instituição de ensino que nos desse credibilidade. A busca era feita por volta das seis horas, quando ela largava da universidade e vinha pra casa. Isso dificultava bastante o nosso objetivo, porque a maioria dos funcionários dos colégios já está às pressas para ir embora, por mais que o colégio só vá fechar-se dali a pouco mais de uma hora e meia. Essa pressa desses preguiçosos vigias do relógio acabava com boa parte das nossas chances. Muitos nem nos recebiam, justificando o final do expediente, e os que recebiam nos mediam de cima a baixo, não gostando do que viam e guardavam nossos currículos negligentemente em lugares de onde provavelmente eles não saíram e ali seriam soterrados por outros mil papéis e, sem dúvida alguma, esquecidos. É... Nossa aparência não era de crédito a primeira vista: Eu vivia com a barba por fazer e os cabelos por cortar, enfiado em camisas desbotadas, descoloradas do gasto, uma calça jeans que tinha o mesmo aspecto de puída da camisa, e os calçados eram, os quase sempre sujos, all star azuis. Nunca me preocupava com roupa, já que o avental da livraria disfarçava os meus trapos. E esse meu visual até rimava com o ambiente cult, o que me apoiava ainda mais no meu desleixo . Minha maninha sacudia a cabeça fazendo balançar as mil transinhas rastafari. Essa era cheia dos vestidos hippies e das sandálias de couro. Definitivamente esses não eram os estereótipos que aqueles funcionários estavam habituados a tratar como professores ou estagiários.
Três semanas se seguiram em busca de um colégio perfeito em que os funcionários não largassem o serviço no segundo seguinte às seis horas em ponto, e que confiasse no que a gente sabia e não no que a gente vestia. Daiane já estava habituada às negativas, já fazia um mês que ela corria a procura de estágio. Absorvia cada “não” como um incentivo, não sei onde ela arrumava tanta disposição e otimismo. Eu era menos entusiasta dessa escola perfeita, não eram boatos que nesse país jovem não se emprega.
Na sexta semana eu já ensaiava uma desistência. Me encorajava para pedir abrigo aos meus pais e engolir meu orgulho e independência. Depois de quatro anos com o nariz empinado e voando com minhas asas aos 22, voltar aquele quarto que eu abandonara aos 18 seria amargo. Já estava devendo um mês a meus irmãozinhos de apartamento. O bolso ainda não era completamente vazio, mas o dinheiro dos ressarcimentos da livraria já se aproximava do fim e era isso que me punha entre a cruz e a espada. Mais duas semanas e seria o segundo mês de frustrações.
Mas o destino sempre tem das suas.
Nunes apareceu sorridente com um folder da rua onde um colégio abriria duas filiais enormes e estava a procura de professores para estágio para comporem seu corpo docente. Aquilo foi quase tão comemorado, por nós três, quanto a final da copa de 2002! Mais esse foi acrescido, por mim, a dívida de favores imensa que eu acumulava com esses dois seres! Nunes e Daiane! Bebemos cerveja até que meus últimos trocados se findassem!
Na data do folder fomos nós dois nos apresentar na tal escola, empunhando os currículos. Fomos bem recebidos. Dai teve que perder um dia de aula. Mas o folder era encorajador, valia a pena. Ao contrário do habitual experimentado por nós, os funcionários não estavam prestes a apagar as luzes, muito pelo contrário, perguntavam nosso nome e falavam “boa tarde!”.
Levou uns dois dias até que recebêssemos um telefone convocando para o estágio. Gritos e mais gritos ecoaram nas paredes do quinto andar do nosso prédio, e houve mais uma comemoração da copa!
Yeah! Depois de quase dois meses ouço o ronco do meu barulhento! O tanque intacto, não ousei gastar gasolina na caça de dinheiro. Mas agora éramos nós dois de novo, soltos na selva de asfalto. E fazendo muito barulho alto chegamos ao primeiro dia de estágio. Fui escalado para experimentação em quatro aulas semanais.
Dois dias depois eu já estava sendo chamdo como professor por aqueles filhinhos-de-papai e dondoquinhas. No começo foi meio difícil a passagem de conteúdo, eu sabia do que se tratava mas a falta de prática em comunicar-me com tantas pessoas e ser claro com as mesmas me deixava um tanto perdido. Nunca fui de seguir convenções. Tratei de imprimir na minha aula a minha identidade, falando gírias, deixando escapar um palavrão, engolindo uns “s” do plural, discutindo um rock entre uma guerra e um golpe militar. E o gostoso da sala de aula é sentir a juventude pulsar, a gargalhada sem aparente motivo, as sacadas originais. Nesses quatro anos e pouco na livraria, tinha me esquecido como era a vibrante a vida colegial. Eu procurava instigar a turma, dando apelidos aos gigantes históricos. Expondo os episódios menos nobres daqueles que são ditos gênios do domínio. E assim fui conseguindo meu lugar, minha singularidade.
Um professor de história, renomado, do corpo fixo do colégio, recebera proposta de estudo fora. Não hesitou em aceitar e a conseqüência óbvia foi o abandono de suas funções no colégio. Vagava um lugar entre os salários de bom valor daquela instituição. O palpite para o nome do estagiário que viraria fixo era o meu. Não tinha muita fé. Mas a confirmação veio em seguida. As piadas e as aulas inusitadas me renderam popularidade e agora me brindavam com um armário na sala dos professores! O salário que me foi oferecido era umas quatro vezes maior que o da livraria. Não coube em mim a felicidade! Pude enfim honrar o mês atrasado com os maninhos do apê. E agora sobraria grana pra investir mais na própria profissão, comprar mais livros, assinar revistas que se relacionem a metodologia e ao conteúdo, enfim uma oportunidade única de me firmar como professor do que eu amava: História.
O tal professor fixo ganhava o dobro do que eu ganhava e isso justifica o absurdo que era a carga horária dele. Aulas em todas as turmas do ensino médio, com direito a reforço nos horários opostos. Ninguém havia me dito que ganhar quatro vezes mais de que como vendedor de uma livraria me daria tamanho trabalho. Não me retraí diante da situação, eu amava cada rastro que o homem havia deixado na estrada do tempo, esmiúça-los era prazeroso, e era isso que me movia. Mesmo a custa de desgaste descomunal.
Caí numa turma de terceiro ano com pouco mais de quarenta alunos. Entre aqueles quarenta rostos indistintos o sorriso dela era só lume. A argúcia era a marca perene em seu semblante, sempre disposta a interagir em minhas aulas, sempre simpática, sempre dócil. Tanto interesse por história nos magnetizou, eu era o mentor ela a aprendiz. No entanto, o mentor dessa história tem vinte dois anos de hormônios explosivos. Sempre foi amante das mulheres. Não minto minha queda exagerada por este ser que beira a perfeição, me apaixono em cada esquina por cada coxa e cada minissaia. E agora eu havia escolhido a minha milionésima vítima da paixão carnal. No despercebido entre uma dúvida e um sorriso eu mirava bem seus seios, buscava vê-los através daquele uniforme sem graça. Ela sempre disposta a saber mais sobre os assassinatos dos figurões históricos e eu querendo saber mais sobre qual o caminho mais curto para ouvir o sussurro daquela boca macia nos meus ouvidos.
Num percorrer de dois meses de aulas, e com a presença assídua dela em todos os momentos extra-classe e intimidade foi o mais inevitável. O telefone dela já era marcado na minha agenda e o nome dela já me inspirava poesias. Acabamos por fundir as relações amigo-professor-aluna-amiga e as conversas que não envolviam a escola e muito menos história me foram enchendo de mais desejo por aquela. Porém nunca procurei meter-me a saber sobre o lado pessoal, saber que tinha namorado aquela altura me deixaria frustrado. Que ela me dissesse o que desejasse. Ela me falava de amigas de amigos, tios, primos, mas não ousou falar de namorado, não sei se ocultava ou se não tinha.
Em mais um mês de aula, e ela já passava no condomínio para ir de carona comigo, pois antes não era de conhecimento meu, muito menos do dela, que moravam um há dois quarteirões do outro.
Houve uma noite em que a chamei para irmos conhecer o meu antigo trabalho, antes de ensiná-la, ela ficou empolgadíssima. Era amante da boa arte como eu! Da boa música! Enfim, do lado bom do viver. Isso me deixou ainda mais desejoso de seu carinho, cada palavra que dela soava era a melodia se dissolvendo em voz. O corpo agora me causava comoção. A boca, as pernas e todo resto em mim eram sabores a se experimentar, como se eu não houvesse sido conhecedor de outras delícias.
Com o homem eu aprendi que depois do apogeu de uma civilização vem o declínio, isso era quase uma verdade matemática. Egípcios, Mesopotâmicos, Romanos, Gregos, Carolíngios, enfim... Todos viram seus nomes figurarem entre os modelos de desenvolvimento de sua época e logo depois o esfacelamento seqüencial de tanto crescimento e poder era inevitável. Um erro de estratégia na guerra, uma medida administrativa menos precavida e ocorriam as quedas das sociedades símbolos.
O saudoso destino me abençoa (amaldiçoa) com uma manhã nublada. Ela chega na hora habitual para tomar carona. Seguimos no caminho cotidiano, num engarrafamento quilométrico. O nublado resolve desabar do céu numa chuva que parecia remontar o Grande Dilúvio. Meu charmoso barulhento, que nunca ousara falhar... Engasga!! Como se o “coroa inteiro”, que ele fora, agora estivesse resfriado. De tanto engasgar o motor apaga. Tento a ignição uma, duas, três, inúmeras vezes e o infeliz insiste em dar-se por defunto. Minha aluna gargalha ao meu lado, se espreme em rir das minhas tentativas inúteis.
A chuva caindo pesadamente por fora dos vidros. O dia já estava perdido, não chegaríamos a tempo nenhum dos dois. O engarrafamento, a chuva, o engasgo do motor. O universo conspirava...
Soquei o volante e decidi que abandonássemos o carro ali e voltássemos para meu apartamento, déssemos os telefonemas para o colégio e esperássemos uma trégua dos céus num lugar mais calmo que o trânsito. Ela concordou e abriu a porta instantaneamente. Saímos de mãos dadas naquele temporal, correndo, desviando das poças, das gotas. O calor da mão dela era algo que eu queria que durasse para sempre, e o som atrás de mim daquela gargalhada infantil me fazia querer parar o tempo. Ela parecia uma criança na chuva, gargalhando, sorrindo do meu cabelo molhado. Brincando.
Chegamos ao meu apartamento encharcados os dois. Nunes nem Daiane estavam, certamente já haviam tomado seus rumos diários. A camisa do uniforme por ser branca era agora transparente de água, os mamilos despontavam naquele alvo. Sinalizavam frio, talvez excitação. Não contive o ímpeto e fitei-os descaradamente. Esqueci da existência do mundo durante uns poucos segundos. E durante esses mesmos segundos ela me analisava em silêncio. Quando fui dar por mim ela estava me olhando com uma cara que eu nunca vi estampar aquele rosto, um misto de espanto e até prazer. De certo percebera minha cara de tarado ao fixar-me nos seus seios. Busquei numa fração de tempo a solução súbita para esse embaraço. Ofereci uma muda de roupa, perguntei se ela se incomodava com o uso de roupas masculinas, ela negou qualquer incômodo. Sem perda de tempo, corri para meu quarto, ainda confuso. Meu Deus! O que eu estava fazendo?! Fosse linda, fosse o que fosse ela era aluna minha, e até então não houvera nenhuma demonstração de interesse explícito. E eu a devorando com os olhos! Respirei fundo... Procurei uma camisa minha, havia milhares pelo quarto, nunca fui muito organizado. Arrastei uma qualquer e fui mais calmo à sala.
Estava estática, como eu a havia deixado. Olhava os móveis, talvez sugerisse mentalmente uma outra decoração. Não sei. Ofereci a camisa. Ela me olhou com aquele olhar de minutos antes, quando eu me tornara um lobo salivando em frente a presa. Pegou a camisa da minha mão estendida, e a pôs no sofá:
- Obrigada professor! Seu apartamento é um charme, adorei aquela coleção dos cds do Bob em cima da estante.
- Obrigado pelos elogios! Toda sala de toda casa é arrumada. A sala tem a função de passar a imagem da casa, a da gente vive arrumada pra encobrir as roupas jogadas pelos cantos nos quartos. O banheiro fica na terceira porta a direita, pode ir trocar-se e não atente para a bagunça, por favor.
- Não, eu me troco aqui mesmo! – Disse entre risos.
As mãos delas começaram a tirar a blusa molhada, a malha ia roçando nos seus mamilos ainda arrebitados. O subir da roupa foi revelando a barriguinha gostosa, no meio dela havia brilhando mais um piercing. E os dedos deslizavam levando consigo a cobertura de pano daquela boneca. Por fim ela despira a minha tara! Os lindos seios. Lindos demais! Eu ainda chocado.
A gola passou pela cabeça e ela sacudiu os cabelos molhados. Em minha frente havia uma morena de cabelos longos e molhados, um sorriso que agora não era mais puro, sorriso de mulher. Agora eu não era o único lobo naquela sala, encontrara uma loba também, e ela parecia querer acasalar-se. O estado de estarrecimento era passado, agora em mim só havia libido, pouco me importava a ética, a moral e o resto. Com certeza as paredes daquele apartamento não testemunhariam contra seu morador.
Dei dois passos lentos olhando nos olhos dela. Minha mão já alcançava a cintura definida, e fui. Fui chegando, olhos nos olhos, os corpos se aproximando, as bocas pedindo a diminuição da distinção. No seguinte, já não havia mais distância a ser vencida, já éramos um só, uma fusão de corpos e respirações ofegantes, minha língua dentro daquela boca com a qual eu sonhara meus lábios abraçando aqueles modelos de maciez. Minhas mãos procuravam, ensandecidas, cobrir cada centímetro de pele quente daquele corpo. Não conseguiriam nunca, no entanto conseguiram algo, tocaram o feixe do sutiã. Dali a dois segundos a peça já estava no chão.
Seguimos nos beijos tórridos. A pus nos braços. Ela me abraçou com as pernas de calça jeans. Eu já sem camisa, e ela de busto nu, se atritava comigo em abraços cheios de contato. A sensação daqueles mamilos excitados me perfurando é sem palavras. E assim seguimos nos enrolando naqueles corredores estreitos do apartamento, nos batendo e nos beijando nas paredes, até chegarmos no meu quarto.
Soltei-a em cima da cama, depois de ter aberto caminho com os pés entre as tranqueiras do chão. E os amassos continuavam repletos de prazer. Já estávamos um sobre o outro. Eu por cima, a olhava como se nunca tivesse visto uma mulher nua. Parei de súbito e apreciei com um elogio:
- São lindos!
- O quê? - Perguntou, meio confusa.
- Seus seios! Nunca vi tão belos!
Ela sorriu um sorriso de satisfação, ou talvez de acanhamento.
Fomos em frente na curtição corpo a corpo. Minhas mãos procuravam o feixe da calça dela, ela, como se tentasse me conter, foi tentando despista-las. Insisti, deixei mais quente o clima, ouvi um primeiro gemido de excitação. Suspirava forte no meu pescoço, lambia meu pescoço e eu lambia aqueles mamilos mínimos. Abocanhava aquelas duas porções de carne macia e morena, passava minha língua na aureola e no final mordia a ponta do peito. Os suspiros se seguiram quase transformando-se em gemidos. Ela não conseguiu conter mais minhas mãos, me deu licitude para usar de seu corpo. Só se preocupava com o prazer agora, com o desfrute. Atingi meu objetivo. Tirei o resto de sua roupa e o resto da minha.
Nus e quentes, fervendo! Entre um roçar forte e uma lambida, penetrei-a sutilmente. Ela, que desde nua não abria os olhos, respondeu a isso com um gemido gostoso e exclamativo – huuumm!! – Segui na cópula, primeiro devagar, como querendo prepará-la para o pior. Depois mais forte. Mais forte. Agora já dava ao movimento os queres de selvageria, fomos nos aproximando dos animais. Dentro de pouco já se ouvia gemidos altos dos dois. E não eram mais pessoas, eram corpos numa luta harmônica de orgasmos, gemidos, sins, suspiros e olhos fechados. Fomos assim, o lobo e a loba se acasalando. E como se houvéssemos treinado, gritamos juntos os últimos gemidos. O que os casais mais almejam, foi ali um alvo do acaso: o orgasmo mútuo.
Os corpos suados desfizeram a fusão, cada um do seu lado caindo em si da altura gigante que a volúpia nos puseram. Acendi um cigarro e traguei profundamente. Ela me olhando:
- Professor! O que a gente fez?!
- SEXO!! De ótima qualidade por sinal. – respondi sem me importar com o impacto que isso viesse causar.
- Não falo do óbvio – entre risos – Pergunto se o senhor não é capaz de perceber o que é isso entre uma aluna e um professor?
- Antes de serem aluno e professor esses dois seres, a quem você se refere, são humanos. Dentro de cada um deles há um coração aos pulos de emoções. E não há ética, ou moral, que me venha negar isso.
- E se houver um terceiro coração?
- Terceiro? – perguntei me engasgando com a fumaça do cigarro.
- Eu não havia falado, mas eu namoro.
- E por que ocultou?
- Não ocultei! Não disse porque não me foi perguntado, e qual a diferença de dizer ou não? Não foi plano meu que eu acabasse na sua cama.
- E por que está aqui?
- Não sei, eu já sentia interesse pelo senhor. Mas nunca fui de ceder às tentações. Conformava-me em ser sua aluna-amiga, e ter meu namorado. No entanto, hoje, eu vi seu desejo aceso nos olhos assim que me olhou naquela roupa molhada. Ceguei minha consciência e mostrei interesse também. E agora estamos aqui. Me sinto uma vagabunda.
- Não ouse se referir assim a si mesma, você é um anjo.
- Meu namorado insistira mil vezes para que eu chegasse até onde fui com o senhor. Apesar de não ter mais virgindade por zelar, eu resistia. Não por falta de desejo, mas por saber que sexo sempre complica, ou estraga.
- Arrependida? – perguntei quase a condenando-a.
- Nunca provei de prazer igual. Mas a minha resposta para a sua pergunta, é sim...
Não proferi a mínima sílaba diante daquele sim. Amassei a ponta do cigarro no cinzeiro, me enrolei num lençol e fui ao banheiro. O chuveiro ligado, eu refletia e me martirizava por ser um animal. Peguei o sabonete e ouvi passos apressados no corredor que passa na porta do banheiro. Não havia ninguém além de nós naquele apartamento. Abri a porta do banheiro com o sabão nas mãos e enrolado na toalha, corri ,quase escorregando no piso, e vi a porta do apartamento aberta...
Fugira.
No dia seguinte, não fui ao colégio. Liguei e disse estar com mal-estar. Mentira. Passei o dia com aquele sim se batendo nos meus ouvidos. Não era possível que eu não tivesse significado nada. Para mim, aquela foi a melhor transa. E, não querendo ser pedante, nunca fui de poucas mulheres. Nenhuma outra me fizera tão bem quanto aquela, e entre uma justificativa para a reação da garota e uma lembrança daquele corpo gemendo em meus braços o que sempre se encontrava era a ausência de respostas. Com o homem eu aprendi que depois do apogeu de uma civilização vem o declínio, isso era quase uma verdade matemática. Egípcios, Mesopotâmicos, Romanos, Gregos, Carolíngios, enfim... Todos viram seus nomes figurarem entre os modelos de desenvolvimento de sua época e logo depois o esfacelamento seqüencial de tanto crescimento e poder era inevitável. Um erro de estratégia na guerra, uma medida administrativa menos precavida e ocorriam as quedas das sociedades símbolos. O meu apogeu acabara naquele último gemido, onde ela gritou e gozou nos meus braços.
Depois de um dia de fossa e sem respostas, resolvo ir trabalhar novamente. O porteiro, que antes me recebia com um sorridente “bom dia” me olhou feio e disse seco:
- A coordenadora quer falar com o senhor, dirija-se ,urgentemente, a sala dela.
Essa era uma senhora chata, conservadora. Provavelmente se opora a minha entrada na quadro de professores. Logo eu, um cara jovem, com camisas desbotadas e all star azuis sujos. Não, isso definitivamente não era um professor distinto de história.
Cheguei a sala da coordenação. Na minha cabeça surgiam mil assuntos, talvez fosse a minha falta de ontem. Ela me avistou:
- Bom dia senhor. Estava mesmo querendo me reunir a sós com o senhor.
- É sobre...
- Não conversemos aqui. Vamos para o meu gabinete.
Sentei em frente aquela mesa de vidro que tinha em cima um computador e alguns papéis. Do outro lado, a senhora segurava um papel e me olhava com ar de superioridade. Começou:
- Para mim um professor tem que ter o moral acima de tudo. Acima de seus interesses, acima de sua pessoalidade. Não pode deixar que questões mínimas interfiram no seu trabalho. Mas infelizmente o senhor não foi capaz de se comportar dessa maneira nobre.
- Seja mais precisa, por favor.
- Em minha mão eu trago uma relação com as assinaturas de quatro meninas que acusam o senhor de tratá-las de forma diferente... De tratá-las com assédio! Elas vieram aqui ontem.
- Quatro meninas?
- Sim, todas suas alunas.
- Quem são?
- Não posso identificá-las. Não direi nem a turma.
- Não tenho direito a defesa?
- Só na justiça! Aqui dentro eu preso pelo que conheço, e essas alunas têm um histórico imaculado. Ao contrário do senhor, que nem se trajar para dar uma aula sabe, elas estudam aqui desde infantes, e por mais que o colégio tenha triplicado de tamanho, eu ainda sei quem presta e quem não presta aqui.
- Onde eu assino?
- Aqui.
Minha voz não aumentara de tom em momento algum, mas depois de me ofender ela esperou que eu replicasse. E com minha expressão inalterada ela se intrigou.
- Vai se manter passivo diante de algo tão pesado? – disse com uma interrogação entre as sobrancelhas.
- A senhora já acionou a guilhotina, minha cabeça já rola. Se não tenho direito a defesa, não adianta espernear. Sabe que não vou levar esse caso aos tribunais, isso causaria um barulho que só sujaria minha credibilidade profissional. E como estou no começo de minha carreira não posso me dar ao luxo de arriscá-la. Só sinto que escola tão renomada aja de forma tão pouco nobre em relação a suas condutas. Arbitrariedade não é uma forma justa de condenação.
- Pronto! – comemorou a minha assinatura do aviso prévio de demissão - Já não é mais parte dessa escola. E para que não saia daqui com uma impressão injusta, lhe digo que as meninas que vieram aqui são do terceiro ano. Procure lembrar suas vítimas
Saí do colégio dedicando todo meu ódio àquela vadia! Não bastava levar meu coração, levou meu emprego e por pouco não leva minha carreira! Eu fui o melhor homem na cama com ela, e ela retribuiu sacrificando umas de minhas paixões, minha profissão. Mas fez bem feito! Sabia que no território dela minha voz valia pouco, arrumou mais umas amiguinhas vacas e fez o serviço. Para consertar a traição do namoradinho preferiu me afastar completamente de sua vida. Não me ligou mais, não mais apareceu. E eu estava no fim do meu declínio, no olho da rua.