10.12.06


(presente pra fofa da Mariana, beijos!)


Escape



Há tempos que venho pensando em homenagear a mulher. Dedicá-las um pouco dessas linhas foi uma forma simples e polida de levá-las um pouco do que eu tenho de melhor. Sim porque todo poeta, escritor ou bêbado vive a suspirar as belas formas femininas que os circundam e traduzem as sensações de apreciá-las no que há de mais singelo e mais gostoso, palavras. Seja com substantivos mal escritos, seja com adjetivos inexistentes em mil dicionários, a mulher sempre há de ser a paisagem e o papel, nossa tela.

Tratando-se de tela, não queria pintar aqui minha deusa, quero, como num ato fotográfico, traduzir o que capto no mais puro escorrer de impressões. A deusa eu deixo pros poetas, eu ,enquanto prosa, quero mostrar nesse retrato o significado gostoso que esses seres têm.

Quando pequenas, as aspirantes a damas prendadas, a boas mulheres, boas esposas, seguem a brincar de boneca, a reproduzir o futuro lar com o futuro marido exemplar. Naquela casa em miniatura não há nada que possa parecer com o que as espera no futuro, mas mesmo assim é uma graça. Se bem que essa graça tem lá suas segundas intenções, vai transformando as pobres gurias em robozinhos-piloto-de-fugão desde de pequenas. Por mais que não seja com boneca que elas brinquem, elas vão aprendendo a absorver a herança de uma hierarquia sem argumento, que fala que menino é azul e menina é rosa, menino pode e menina não pode.

Crescem, ficam lindas. Lábios, seios, pernas, gosto, cheiro, sexo. Tudo isso é uma dádiva. O corpo sempre foi o melhor banquete. Mas esse banquete tem um tempero diferente. Personalidade, racionalidade e TPM crescem na mesma proporção em que a cintura dessas graças se diferencia. E ela aprende que menino pode ser rosa sim, e que elas sempre amaram o azul.

Anos e anos de trocas de socos ideológicos para saber qual foi a deficiência crônica que as coibi de pegar no volante, poderiam quebrar com o que há de mais lindo nas mulheres, o lado que nos falta, a parte compreensiva, que alenta, que abraça, que conforta, enfim, o amor. Poderiam muito bem se enfezar e bater o pé até que nós não suportássemos uma greve de sexo universal. Mas não, elas sabem que esse negócio de embate é coisa desse bicho mimado que é homem, que não sabe largar um brinquedinho chamado poder.

Ainda nas conseqüências inversas que foram produzidas pelo mimo masculino, é fácil observar a dependência que essas criaturas nos fazem passar. Não aquela física da mama que é comum a todo ser humano, mas a emocional adulta. Essa é a que destroça qualquer ignorância e põe abaixo qualquer machão. Repare nos olhares dos homens enquanto olham pra suas namoradas. Há um resgate daquele guri chato que babava quando passava em frente a sorveteria. Não que todo homem com namorada seja assim, mas aqueles que as amam agem semelhante. A mulher a quem se tem apreço funciona como um escape de toda a pressão do mundo masculino que ele participa. Com ela, ele pode ser bestão, ser amigo, dizer que ama, dizer que ta apaixonado e todo o blá-blá-blá que esses casais vivem a saborear por aí. O mais engraçado é que as coordenadas daquele mundo, do qual ele busca fuga na mulher, foram criadas por eles...