O Sempre e o fim
Ela acordou cedo para o dia que seria o último. O dia em que o barulho de sua morte seria como o cair de uma agulha entre os pés da multidão. Eram quatro da manhã. Olhou para o lado da cama que se mantinha vazio. Era uma cama grande de casal e que nos últimos dias parecia ter dobrado de tamanho. A ausência dele era inegável.
A janela, maquiada da neblina urbana, pediu para ser atravessada. O pedido se fez sem palavras, a janela era uma vadia que pede uma transa dobrando o indicador na direção dos próprios peitos. Só que a penetração aqui tratada era o corpo da jovem atravessando secamente os vidros do décimo andar. A resposta ao pedido foi um fechar de olhos brusco, seguido de lágrimas cristalinas. O relógio era a única coisa a conversar naquele apartamento de paredes gastas. Conversava com o tempo, perguntava com tique-taques irritantes e o tempo lhe respondia com um silêncio de um ancião. Ela fitou o aparelho como querendo uma resposta para o que acontecera, para saber o que houvera com sua vida. O relógio nada disse, a não ser o tique-taque que saiu quase como um soluço.
De nada valia aquele tique-taque. De nada valia o convite da maldita janela. De nada valia a própria existência. As lágrimas seguiam
Olhou pro retrato no criado mudo. Ele e ela sorrindo numa tarde regada a muitos beijos. O fundo eram as montanhas com os picos brancos de neve, lembrança linda das últimas férias que passaram juntos. Ela focou o rosto dele na foto. O sorriso, o sorriso era a marca dele. Puro e delicioso como o de uma criança que se lambuza de sorvete. E foram inesquecíveis aquelas férias com ele. Aliás, muito do tempo que passou ao lado de Fred, esse era o nome do amado, passou a ser marcante. Ela era louca por ele, tudo nele a trazia prazer,desde o sexo apaixonado até as piadas sem graça.
Amava quando atravessavam a madrugada a cantar Los Hermanos, Legião Urbana, Titãs e etc... ela até que arriscava um Eric Clapton, mas o inglês de Fred nunca foi dos melhores, a parte dele era embalar a diversão com seu violão. A cada música tocada um intervalo com direito a beijos e olhares tão apaixonados que os sorrisos eram inevitáveis. Ela era dessas mulheres modernas que dirigem um compacto e gostam de futebol. Casar-se nunca fora uma idéia muito atraente, se amarrar a um cara não lhe trazia conforto. Mas depois de tê-lo conhecido foi se acostumando, o casamento não passou a ser o sonho de menina, foi mais uma oficialização, ele já morava na casa dela, os amigos cobraram a cerimônia e assim se deu o matrimônio. Não foi nada suntuoso, alguns amigos na praia, o sempre presente violão de Fred... e pronto. Embora a simplicidade não faça transparecer, aquela foi a noite mais gostosa de ser vivida por ela. Ali ela soube que ele seria pra sempre dela. Sempre? O sempre acaba quando a realidade resolve interferir nas nossas lembranças.
Foi numa sexta, era tarde e eles voltavam da última sessão do cinema. Entre uma gargalhada e um beijo aparece uma feição difusa no vidro lateral embaçado. Bate violentamente no vidro. As gargalhadas dão espaço ao pânico dentro do carro. Não vendo o vidro se abrir, a pessoa de fora com fortes coronhadas põe em estilhaços o que era a janela do automóvel. Com as mãos tremendo, ela tira a aliança e todo e qualquer objeto dourado que em seu corpo houvesse, seu marido faz o mesmo. Fred fora sempre observador, olhava com absurda raiva contida para aquele capuz. E num ímpeto heróico que lhe ocorreu tenta a todo custo tomar a arma daqueles olhos frios... O sangue tingiu o tecido estranho do automóvel e se ouve ao longe os passos ligeiros daquele que quebrou o sempre dela. Ela o beija como se fazendo isso o fosse trazer de volta. Beija-o loucamente. A saliva se mistura as lágrimas e aos gritos ensurdecedores de socorro. Os únicos ouvintes eram os postes. Fred morre ali.
Agora no chão, abraçada ao retrato ela intensifica o pranto. Sente o gosto das próprias lágrimas e no seu coração o que se revela é uma tristeza tão forte, tão intensa que parece subtrair do peito os batimentos. Tenta se levantar, cai logo

4 comentários:
Olá! Sou amiga de Camila, que me convidou a entrar em seu blog e dividir o prazer da leitura.
Gostei muito de seu conto, principalmente porque ele tem a contundência sensual e leve que deixa o texto interessante, rápido e envolvente. É dificil encontrar talentos assim. Olha, não o conheço ainda, tive apenas uma breve defustação de eseus dons através desses dois textos, ms já posso afirmar convictamente que sou leitora sua, viu, Bruno!
Parabéns, continue escrevendo, moldando e remoldando seu talento.
Sua nova leitora,
Denise!
Mil beijos!
ói.. tem nem o q dizer.. tah mto foda..
tooooodos!
vc devia escrever um livro... jah te disse =]
parabéns e q vc continue assim, com mto sucesso
=o********
"CARALHO!!! eita texto foda da porra!" foi o meu pensamento ao concluir a leitura. "eita Bruno foda do caralho!" veio logo em seguida em ninha mente. só não bati copinho porque minha mãe ta dormindo aqui do lado.
parabéns!!! continue assim!
se eu soubesse que ia ser tão foda não tinha demorado tanto pra ler!
hehehe
ps: você não merece nem veja, nem isto é, nem época porra nenhuma! essas revistas são um rebanho de lixo e você é um escritor fodão!
agora tá bom que eu já paguei pau demais.
Postar um comentário